sexta-feira, 22 de maio de 2009

Janus à espreita



antes o outro era até um amparo; tínhamos medo, quando muito, de alma de outro mundo.
De que se tem medo agora? Do outro, porque é eventual ameaça feroz

Na religião romana da Antiguidade, há um deus chamado Janus, sempre representado por uma cabeça com dois rostos opostos, de modo a olhar para a frente e para trás; essa divindade era considerada protetora dos começos, isto é, da hora inicial do dia e do primeiro mês do ano (Januarius), pois abria e fechava todas as coisas e guardava o passado (ano findante) e o futuro (ano novo).

Para proteger inícios e términos vitais, o francês Marcel Proust publicou, nas primeiras décadas do século 20 (usando primeira pessoa e produzindo um monólogo interior em 16 volumes), uma das mais importantes obras de toda a literatura: “ Em Busca do Tempo Perdido”. É provável que o escritor quisesse viver no romance aquilo em que acreditava, ao afirmar que “certas recordações são como os amigos comuns: sabem fazer reconciliações”.

Recordações! Olhar para trás e reconciliar-se com o futuro! É claro que o fundamental não é procurar o tempo perdido, mas, isto sim, aquilo que no tempo se perdeu e não deveria tê-lo feito. Lembramos o que já se foi para orientar o desejo daquilo que deve vir. No entanto a maior parte das pessoas em nossa época vem se preocupando mais com as metas (que são pontos de chegada) do que com princípios (que são pontos de partida).

Quais deveriam ser, então, os nossos valores? Garantir a integridade da vida, promover a sinceridade das relações interpessoais, realizar a lealdade fraterna e fortalecer a fidelidade ao solidário? Os valores são exatamente os princípios (os começos protegidos por Janus...) e constituem o amálgama que agrega e orienta as atitudes individuais para a efetivação das intenções e finalidades de uma coletividade; valores são referências de conduta (grupal e pessoal) em torno das quais um coletivo compreende e legitima o exercício de suas atividades conjuntas; valores representam a possibilidade de convergência honesta dos propósitos usualmente dispersos na convivência multifacetada e, quando apropriados (tornados próprios) por cada um, diminuem o risco de artificializar e retirar autenticidade dos contatos presentes no cotidiano.


Assim caminha a humanidade... Caminha em conjunto? Caminha camuflada e amendrontada? Caminha agora mais sozinha do que antes? Caminha em direção ao outro?

Basta um exemplo a bem recordar: há poucas décadas, independentemente do tamanho da cidade, quando alguém, tarde da noite,saía a pé de algum lugar (trabalho, escola, igreja, clube etc.) e caminhava só em direção ao próprio lar, ouvir passos de outra pessoa representava um certo alívio: Agora vou ter companhia! E os dois seguiam andando juntos...Hoje, quando, na mesma circunstância, são ouvidos ruídos humanos, já se pensa: meu Deus do céu, vem vindo alguém... O que aconteceu? Que princípio foi violentado?Antes o outro era até um amparo; tínhamos medo, quando muito, de alma de outro mundo.

De que se tem medo agora? Do outro, porque, em vez de ser alguém que pode nos proteger, é eventual ameaça feroz.

No século anterior ao de Proust, o poeta inglês George Gordon Byron nos desafiava, dizendo que “a recordação da felicidade já não é felicidade; a recordação da dor ainda é dor”. Por isso é preciso reviver o relato inserido no princípio da Bíblia judaico-cristã, no qual há um trecho conhecido (e muito esquecido). Logo após a narrativa do primeiro assassinato e do conseqüente estilhaçamento original da fraternidade (a ser refeita), o Criador procura o criminoso, que,cinicamente, alega isenção. “O Senhor disse a Caim: - Onde está o teu irmão Abel? – Não sei – respondeu ele – Serei eu o guarda de meu irmão?”

Pergunta e resposta continuam ecoando nestes novos recomeços...

Mario Sergio Cortella.

LIÇÃO DE CASA






Para criar o novo temos que entregar o velho . Transmutar o velho em novo: eis o grande desafio.

Vivenciar esta realidade traz confusão e perplexidade, pela falta de clareza interior.

Urge a construção de pontes interiores para que a saúde e a sabedoria sejam livremente conectadas.

Criar novas vias de acesso do interno para o externo, com ausência de pedágios, significa rever modelos e hábitos mentais próprios.

Entenda a sua responsabilidade e compromisso nisto: no despertar do adormecido.

A realidade está nos confrontando rapidamente e com extrema potência: não há mais espaço para o descuido.

A utopia da busca do entendimento global inicia com a limpeza a arrumação do próprio quintal interno.

E como você está lidando com o seu espaço interior, com o seu ser? Qual tem sido o custo do pedágio para seus conflitos, inquietações, incongruências e angústias?

Propor colaboração, transparência, participação, negociação, consenso para fora, requer profunda reflexão para dentro.

Na tentativa de abarcar a totalidade da realidade, pode-se correr o risco da grandiosidade, generalização e como consequência a frustração, confusão e sensação de impotência.

Um exercício útil, na busca de novos caminhos para a harmonia, é a revisão dos próprios paradigmas (valores, crenças, pensamentos, experiências, e os apegos aos modelos do passado), pois o desequilíbrio externo nada mais é do que o próprio reflexo interno do ser.

Para entender e respeitar os Direitos Humanos precisamos percorrer árdua trilha: transformar novamente o Ser Humano. Reflita sobre isto por alguns momentos. Sei que o seu tempo é precioso.

Medite apenas por três minutos. Ouça o seu silêncio interior.

É uma tarefa de casa bastante simples, singela e prazerosa.

CRENÇA: ATO DE FÉ NO AMOR



Minha crença básica é no ser humano. Na sua capacidade incessante de autonomia. Na ação constante e natural pela preservação da vida e tudo que a ela diz respeito. Por isto creio. Na matéria e no pó . Na transmutação. No visível e no que existe além disto. No infinito porque é impossível. Creio no possível e mais além. Creio na fluidez do líquido. No espaço. Na possibilidade de mais enxergar.
Na sinergia, no cosmos e no caos.
Creio nos limites. No desconhecido. Nos sentidos, no explicável, no conhecimento, técnica, prática e experiência. Valorizo isto. Creio além. No ilimitado. Nos valores, princípios, no espiritual. Na transcendência , na estética, na ética, no belo. Creio na força, no guerreiro, pura energia. Creio na transparência, no translúcido. Creio nas divergências porque é estímulo. É desafio.
Creio na convergência porque é ação cooperativa.
Tenho crença de fé por isso creio.
Creio na existência pelo simples fato de existir.
Tenho fé na vida. Por isto tenho crença. Na inovação porque pressupõe novos caminhos. Na adaptação porque põe o tempo a respirar a nosso favor. Conspirador porque proponho mudanças. Mutante porque busco consciência ampla, total, cósmica. Creio nas emoções. Em todas elas. Feias e belas. Valorizo a ciência como um dos caminhos. Qualifico e ouço a intuição com profunda humildade. Irmano-me na arte e na paixão. Busco a integração e congruência como eixo. Permito-me o avesso porque também é. Creio no absoluto e relativo. Creio na exuberância , no nada , no vazio. Creio na paz. Creio na descoberta incessante e sempre nova. Creio no encontro.
Na harmonia da natureza e dos seres.
Creio na ação espontânea pela possibilidade de escalar o impossível. Na proximidade do aconchego. No afeto e no amor. Creio na vida. Creio no homem porque crê.
No crédulo e no incrédulo por ser homem.
Creio no ser humano por ser humano.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

FERIAS NA TURQUIA - UM ESPANTO!



Então...


Você já foi a Turquia?


Que imagem rola em sua cabeça?


Então vá. Corra.


É surpreendente. Istambul - antiga Constantinopla - fascinante.


Estreito de Bósforo (Corno Dourado!) que se esparrama dividindo o Ocidente do Oriente.


Berço das civilizações: fenícios, gregos, romanos, otomanos, cristãos. Tá tudo lá.


Igreja de Santa Sofia ao lado da Mesquita Azul. Convívio de diferenças.


Povo hospitaleiro, alegre, festivo, e absolutamente limpo. Chama a atenção.


Táxis, Ônibus limpíssimos. Metrô de superfície limpo, povo com preferência vestindo camisas brancas, tênis alvíssimos (diferente aqui no Brasil, que os "mano" usam tênis tipo "couveflor encardido"!)


E Capadócia? Marte na Terra!


Fascinante.


O que que tem lá?


Na onda do Cristianismo: a casa de Nossa Senhora, a trilha de S.Pedro, o Monte Ararat (lembra da Arca de Noé?) , as cidades subterrâneas e as pinturas com os famosos ícones. UFA!


E a paisagem? Lunar.


Chega!!!




Vá!



SOMBRA





“Quem rejeitou seu demônio,importuna os outros
com seus anjos”. (Henri Michaux)

Desde quando eu venho te rejeitando , expulsando , negando?
Em pequeno, no despertar da tênue consciência espiritual , de enganosa fome imaginava o poder da luz sobre ti .
O fato da existência desta , o clamar incessante (OH! Senhor , OH! Senhor) expurgava magicamente a presença dos meus demônios interiores .
No alvorecer da maturidade , no hábito de habitar minha mente , tu te solidificas num rosto monstruoso , presença involuntária em minha mente , sonhos e pesadelos .
E agora , recente , no lumiar do após a meia idade, começo a te entender e deixar que venhas . E num aprendizado dolorido , aprendo a acolher-te como parte de mim .
Doce ilusão de mente mentirosa a enganar e a seduzir-me pela possivel facilidade .
E num espasmo de dor, constato que venho tentando a trilha da ilusão.
Pois bem . Bem-vinda seja.
Com toda a doçura de que é capaz o doce maior, te acolho!
Venha. Te recebo para que não me destruas .
Acolho em mim minha parte negada e rejeitada. Abro os braços e coração .
Mais do que isto , com mediocre compreensão e empenho do despertar de minha adormecida consciência.
Chega perto . Chega mais .



Que venha o meu Medo com seu manto de veludo preto , denso , sorrateiro . Grandioso em seu porte . Que faça parte de minha existência , com seu poder onipotente e me deixe acariciá-lo . Jamais se distancie pelas vãs tentativas de derrotá-lo em seu esplendor .
Apresenta-te com toda a tua alegoria . Ônix sublime . Num repique ensudercedor de bumbos , surdos e atabaques . Que tua dança alegórica envolva minha consciência e neste rodopio ensandecido eu possa acolher-te e se processe a mágica da transmutação .

Bem-vindos todos os meus Ressentimentos .
Incontáveis . Imensurável quantidade de pernas. Tantas quantas habitam a centopéia .
Rasteja em teu caminho viscoso , repleto de curvas , devorando tudo na passagem .
Fome incessante . Vem . Faz - te presente . Mostra que contigo eu me sinta desafiado ,não mais a superar-te, mas acolhendo e sabendo com humildade , contigo conviver .
Continua em teu percurso de sinos e chocalhos , de sons indecifráveis, martelando com constância minha mente de ti saturada .
Ensina-me a tirar partido . Não mais me provoques . Sem me sentir derrotado , abnego da possibilidade de competir contigo.
Meu coração disposto a te acolher , clama pela incessante e voraz fome de tua presença .

Hellas! Inveja Não mais nego tua existência .
AH! fáceis e fúteis projeções. Aproxima-te ereta , ícone sólido , denso e consistente tal qual uma rocha . Cristal facetado .Quantos sonos desperdiçados por ti . Como venho te tratando mal últimamente! Bem-vinda sejas em seu formato vigorozo e puro . Falo alado transpassando minhas névoas de ilusão .
O convite não é para que habites meu ser , pois é ele sua morada . Mais que isto. Permita saborear teu néctar e textura .

Deixa-me envolver em teu manto dourado e de mãos entrelaçadas , buscarmos a paz .
Abram todas as porteiras , janelas e espreitas . Soltem as amarras .

Que todos os batedores , sirenes e guardiões sejam poucos para juntos acolher-mos a Culpa em seu diáfano manto .
Que a chegada seja anunciada por todas as trombetas de meu universo interior.
Que a acolhida seja inesquecível . Uma grande marcha triunfal .
Que na praça da apoteose de meu mundo interior , tua evolução , em pura alquimia , seja transformada em todas as bandeiras de cores e formatos indescritiveis .
Que indescritivel seja a minha alegria de saber apreciar e conviver contigo .
Bem-vindas todas as sombras que não sei nominar , mas que habitam meu ser.
Que o caminho de minha consciência mostre maneiras de identificá-las e só então preparar hospedagem . E que a acolhida seja doce como doce é o mel .
Estarei atento a qualquer movimento .
Até mesmo na dança de uma pequena folha flutuando no ar .