Este filme em super 8 foi baseado no conto abaixo. Concorremos em um festival e ganhamos em 3º lugar.
Escrevi este conto em 1977.
Ê MORENA
Nininha alcançou rapidamente o sutien pendurado no cabide do tripé que havia pertencido a sua avó Nininha I.
O quarto cheirava frio-quente.
Sarro de cigarro, resto de meia e meia-porra misturava-se num caldeirão maior em sua mente.
Doce é o desejo. Suave a recordação. Ranço é o que sobra no ar após uma trepada sadia.
- “Putz! Será que estou sem pasta?”
A meia deslizava por sua perna moreno-temperô – SFIZZZZZZSS...
“Perfuma o hálito, enquanto limpa os dentes, Colgate!”, cantarolava cucamente, enquanto – SFIZZZSS - colocava outra meia na outra perna moreno-temperô.
FORA, os primeiros ruídos dos carros e ônibus carreava gente ao trabalho.
- “To atrasada. Caceta!, tirando um pentelho louro do lençol.
- “Não é meu”. Gozado, quando adolescente tinha visto uma amiga sua, “clarinha, clarinha”, tomando banho. Será daí seu desejo de possuir pentelhos claros?
Da cortina escapava uma linha do dia indo cair no travesseiro.
No travesseiro, cabeça loura dormindo.
Bruno não se incomodava com a luz na cara. Até gostava.
Era uma dificuldade hoje em dia arranjar pentelhos louros.
- “ Será que a poluição contribuiu para o escurecimento dos pêlos das pessoas?”
Nininha se adorava em raciocínios lógicos e sua capacidade de fazer analogias, sacar conclusões de coisas absurdas, faziam com que se achasse altamente criativa.
Precisava mandar consertar a torneira que pingava sem parar.
- “ Odeio torneiras que pingam!”
Tinha um certo medo da solidão, do vazio de uma torneira que pinga que traz as manhãs de cortinas cerradas.
“AH! Bruno e sua lourice”.
Mãos crispadas, mente excitada.
-“ Merda o trabalho. Ainda tenho um tempinho.”
Enfiou-se pelo lençol, colocando-se no corpo frio de Bruno.
O único problema era o corpo frio, gelado, de Bruno.
As mãos de Nininha torpedeavam Bruno: cabelos, pescoço, braços, tórax, peito, ventre, coxas, sexo, pernas, pés.
Lábios trêmulos desciam pelos pêlos do peito...
TRINNNNNN... “Bosta de relógio. Bruno iria acordar, saco!”
Com um tapa, atira longe o despertador que vai cair no tapete felpudo, ao lado da cama.
-“ Nininha, Nininha, você é de morte.”
Era assim que Nininha I – a avó – falava de si mesma.
Era assim que Nininha falava de si mesma quando aprontava alguma boa.
-“ Também sou gente e tenho direito de curtir uma boa antes do trabalho.” E depois, a satisfação era outra.
Fazer sexo pela manhã é uma loucura. A gente fica contente, contente e dizem, produz muito mais. Assim é.
Mãos crispadas procuram-se sob o lençol florido verde-rosa.
A cama começa a balançar, a gemer.
- “Ainda ta firme, a cama de ferro que herdei de vovó...”
NHEC, NHEC, NHEC.
- “Qual é a de Bruno. Não se excita, PÔ!”
Suas mãos procuram o sexo do companheiro e coloca-o de encontro ao seu.
- “ AH! Assim, assim, meu amor...”
Coração batendo. Respiração arfante.
Ê MORENA QUEM TEMPERÔ, MORENA QUEM TEMPERÔ O CHEIRO DO CRAVO
Nininha salta rápido da cama dirigindo-se ao banheiro.
Momentos depois, já vestida, abre as cortinas, tira o lençol verde-rosa (as cores de minha Escola), dá um beijo na testa de Bruno, desce os dedos pelo pescoço forte bronzeado e puxa a válvula PZISSSSSSSS...
- “ Ai Credo, que horror esta visão matinal de um homem se esvaziando, PZISSSSSS...
Sumindo. Sumindo, PZISSSSSS...
Rapidamente pega o boneco quase murcho amassa-o com as mãos e dobrando, enfia dentro de uma caixa em cima do guarda-roupa.
- “ Hoje estou linda!”
Ê MORENA QUEM TEMPERÕ, MORENA QUEM TEMPERÕ A COR DE CANELA.
Passa a mão pelo lençol amarfanhado e sai com um pentelho louro enrolado em seu dedo indicador.
- “ Meu Deus, se continuar assim Bruno vai ficar careca logo, logo.”
O elevador encontra-a rindo de seu altíssimo senso de humor.
Nas mãos a chave da porta e resto louro de Bruno.
Na boca um certo gosto amargo – “Perfuma o hálito, Colgate...”
Aperta a letra T e desce vitoriosa, dizendo-se – “ São Paulo!”

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