quinta-feira, 17 de setembro de 2009

AS CAUSAS




Os crepúsculos e as gerações
Os dias e nenhum foi o primeiro
A frescura da água na garganta
de Adão. O ordenado paraíso.
O olho decifrante na penumbra
Os amores dos lobos na alvorada.
A palavra. O hexâmetro. O espelho.
A torre de Babel e a soberba.
A lua que miravam os caldeus.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang-Tzu e a borboleta que o sonhara.
E nas ilhas, de ouro, as macieiras.
Os passos do errante labirinto.
O infinito tecido de Penélope.
O tempo circular para os estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada gota de água na clepsidra.
As águias, os fatos, as legiões.
César na madrugada de Farsália.
A sombra de umas cruzes pela terra.
O xadrês e a álgebra do persa.
Os rastros das compridas migrações.
As conquistas dos reinos pela espada.
A bússula incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei por uma adaga justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol na Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida que se espelha.
O naipe do taful. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remordimento e cada lágrima.
De todas essas coisas foi preciso
Para que as nossas mãos se encontrassem.

Jorge Luis Borges

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